Falta remédio para combate ao fumo

0
41

Uma doação às pressas de 1,9 milhão de comprimidos de um antidepressivo feita pelo Ministério da Saúde revela o caos do sistema de distribuição de remédios usados no programa antitabagista do País. O medicamento, comprado para abastecer centros de referência no combate ao fumo, estava estocado nos armazéns do governo sob a justificativa de não haver demanda suficiente. Mas, longe da burocracia brasiliense, nos postos de atendimento, os pacientes tinham o tratamento interrompido, modificado ou adiado justamente pela falta do remédio. São 270 cidades cadastradas para fazer o atendimento.
A doação do medicamento bupropiona (um dos mais conhecidos é o Zyban, da GlaxoSmithKline), acelerada para impedir que o remédio estragasse nas prateleiras, não resolveu o problema de abastecimento. Alguns centros que necessitavam do remédio fizeram pedidos extras, mas não foram atendidos. "Recebi o aviso de que tudo já havia sido distribuído para outros Estados", afirmou a coordenadora do centro do Espírito Santo, Cremilda Maria da Silva. "Segui o cronograma proposto. Mas não adiantou", completou.

Assim que soube da oferta, Jaqueline Scholz Issa, chefe do serviço de combate ao tabagismo do Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, solicitou 80 mil comprimidos do remédio. "Não recebi nenhuma resposta. Estou até agora esperando."
A quantidade de bupropiona doada seria suficiente para tratar 3,3 mil pacientes por um mês. Como o prazo de vencimento do produto era fevereiro de 2009, o ministério decidiu não só repassar aos centros especializados em tabagismo como também estender a oferta para todos os serviços. O medicamento, um antidepressivo, também é utilizado no tratamento de outras doenças.
O diretor do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Dirceu Barbano, afirmou que lotes foram entregues seguindo a ordem cronológica dos pedidos. Mas a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, que encaminhou um pedido para abastecer centros instalados na cidade, apontou outros critérios. "Foram contemplados municípios mais próximos ao Distrito Federal, por questões ligadas à logística e por causa das datas do vencimento estarem efetivamente próximas. O município de São Paulo não foi incluído na distribuição extraordinária", diz a secretaria em nota.
Na lista de Estados contemplados, no entanto, estão Acre, Amazonas e três municípios de Pernambuco. "A impressão é a de que existe um buraco negro na distribuição", diz Jaqueline. "Já é difícil entender como um remédio tão importante para nós fica parado no estoque, com risco de perder a validade. Mais ainda que, depois de solicitarmos um lote extra, o produto novamente não chegue."
O exemplo da bupropiona não é o único. Um lote de 800 mil gomas de nicotina deverá vencer em novembro. Para evitar a perda do produto, o ministério procurou a empresa vencedora da licitação para negociar a troca. O produto havia sido comprado dois anos atrás. "É inacreditável. Há meses solicitamos a goma, mas recebemos uma quantidade ínfima", afirma Jaqueline. De julho de 2007a junho deste ano, o Incor recebeu menos de 300 gomas. O ideal seria que recebesse mensalmente 5.400 unidades.
A coordenadora do Programa de Combate ao Tabagismo de São Paulo, Luizemir Lago, também se queixa da irregularidade na entrega dos medicamentos. O Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod) constantemente recebe uma quantidade menor do que o consumo médio mensal. "A distribuição é errática. Em um trimestre chega, outro não. Em outro, o quantitativo é maior do que pedimos."
O impacto da distribuição irregular das drogas não dá, segundo especialistas, para ser mensurado. "Mas é óbvio que isso atrapalha a eficácia do tratamento. Temos de fazer ajustes, nos adequar ao que há no estoque", diz Luizemir. Além disso, a inconstância dos recursos impede a ampliação dos serviços. No Incor, por exemplo, há uma fila de 1 ano e 2 meses para conseguir atendimento. "Não funcionamos com a capacidade máxima porque não temos como garantir os medicamentos. Por causa da falta de organização, pacientes graves, que poderiam estar sendo beneficiados, ficam na fila."

Fonte: Estadao.com.br