Alimentos podem interferir no humor, dizem especialistas

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Ystatille Gomes – especial para O Globo Online

Quem nunca foi surpreendido por um estresse ou irritação sem motivos aparentes? Para manter o bom humor, não basta estar com o corpo descansado e a rotina equilibrada. Os hábitos alimentares podem interferir em nosso estado emocional. A falta de algumas substâncias e a presença em excesso de outras podem provocar uma série de reações indesejadas no indivíduo. Apesar de ainda não haver um consenso científico, há muitos estudos sobre a influência da alimentação nas emoções. Cabem aos especialistas que defendem essa idéia, explicar as causas dos transtornos emocionais pelo alimento e sugerir nutrientes adequados que possam contribuir para o equilíbrio do humor.

O Food and Mood Project – Projeto Comida e Humor-, elaborado pela especialista inglesa Amanda Geary, mostrou que as mudanças no que comemos podem ser positivas para a saúde mental. Os indivíduos estudados, ao aumentarem o consumo de frutas, peixes e líquidos em detrimento do açúcar, cafeína, álcool e chocolate, demonstraram uma melhora na instabilidade emocional, na depressão e em ataques de pânico e ansiedade( Leia também: Alimentos na medida e na hora certa ajudam a manter o bom humor )

– A alimentação afeta o humor por causa de sua composição nutricional. As vitaminas e os minerais, presentes em frutas e verduras, por exemplo, são alguns dos responsáveis pela regulação do organismo. E essa regulação esta diretamente associada ao estado emocional. Além disso, esses nutrientes fornecem energia para o corpo, o que garante o bom humor – diz a nutricionista Claudia Gonzaga, conselheira do Conselho Federal de Nutricionistas (CNF).

Ao ingerir um alimento, os nutrientes nele contidos atuam na formação e liberação de neurotransmissores, que são enviados para o Sistema Nervoso Central, órgão considerado responsável pelo estado de humor. A principal responsável pela sensação de bem estar é a tão conhecida serotonina. Mas, de acordo com a nutricionista funcional Suzana Machado, do Centro Valéria Paschoal de Nutrição Funcional, há variáveis que podem complicar a produção e liberação da substância.

– A serotonina é o neurotransmissor que está ligado ao bom humor. Quando os sinais, que são enviados ao sistema nervoso central, estão em desequilíbrio, quer seja por deficiência nutricional, como por outros distúrbios fisiológicos, provocam uma deficiência na produção de serotonina, que está ligada ao bom humor. Esse fator desencadeia diversas alterações em nosso sistema nervoso, como depressão, ansiedade, aumento de peso e fadiga – explica a nutricionista.

Na nutrição, a falta de vitaminas C, B6 e B12 assim como de magnésio, ácido fólico causam deficiência de serotonina no corpo. Portanto, quem anda de baixo astral pode incluir na dieta alimentos como laranja, cereais, frutas e verduras – que ajudam a melhorar o ânimo. A ausência do triptofano, aminoácido precursor da serotonina, também debilita o estado emocional. O triptofano está presente na soja, arroz integral, pão integral, leite, iogurte, feijão e lentilha.

Se por um lado, a ausência de determinados alimentos na dieta pode contribuir para deixar o indivíduo cabisbaixo, a presença de outros pode potencializar estresses, ansiedades e depressões. De acordo com Suzana Machado, os alimentos com alto teor de colesterol e gorduras saturadas desequilibram a flora intestinal, alterando a produção do hormônio e gerando a constipação característica do estresse. Além disso, um intestino que não está saudável promove uma absorção insuficiente dos nutrientes, e ainda pode causar a resistência à insulina e gerar doenças crônicas como obesidade, diabetes, hipertensão, entre outras. (Leia mais: Dicas de alimentos para melhorar o humor)

A nutricionista Danielly Costa, mestre em Bioquímica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alerta sobre os efeitos de uma dieta rica em gorduras e pobre em carboidratos no corpo do individuo e consequentemente em seu estado emocional.

– Uma dieta rica em gorduras e proteínas e ao mesmo tempo, pobre em carboidratos, leva o indivíduo a desenvolver um estado fisiológico chamado de cetoacidose, no qual as células do nosso organismo não são capazes de utilizar os carboidratos como principal fonte de energia. Na ausência deste nutriente, o cérebro passa a utilizar principalmente as gorduras como fonte energética. E como resultado do metabolismo de gorduras, há um aumento da produção de substâncias chamadas corpos cetônicos. Estas substâncias levam o indivíduo a desenvolver sintomas como fadiga e mal estar, podendo afetar negativamente o humor – explica a nutricionista.

Para melhorar o funcionamento do organismo, a nutricionista Patrícia Davidson, da VP Consultoria, recomenda a ingestão de frutas, legumes e verduras orgânicas, que protegem a parede intestinal da ação nociva de bactérias e toxinas, e aconselha que se evite, além da ingestão de açúcares e gorduras, as carnes vermelhas e o sal, que aumenta a pressão sanguínea, exaurindo a glândula que nos ajuda a lidar com o estresse.

Os alimentos que provocam reações estimulantes também podem desencadear sensações indesejadas. Além do café, o chocolate, provoca a liberação de adrenalina, alterando o metabolismo. Essa mudança causa o aumento da tensão nervosa e o ganho de peso, conforme explica Davidson. Ela chama atenção também para o uso equivocado das bebidas alcoólicas, erroneamente encaradas como relaxantes:

– O álcool reduz a capacidade de o fígado lidar com as toxinas do organismo, fazendo com que elas permaneçam no sistema, gerando danos como o acúmulo de gordura no coração e enfraquecimento do sistema imunológico – relata a nutricionista.

Vale dizer que todas essas sugestões não fazem parte de uma fórmula da felicidade. Elas apenas contribuem para a melhora do funcionamento do organismo e da produção dos neurotransmissores responsáveis pelo bem estar